O diário de um morto

22 de abril – Estou bastante feliz. Nossa! Consegui finalmente adquirir minha sonhada motocicleta e ainda vou poder dar apenas uma entrada e pagar o resto em prestações a perderem de vista. Fui hoje à loja e falei com o vendedor sobre os detalhes da motocicleta que escolhi. Fiz questão de deixar claras as minhas opções: carenagem esportiva, 1100 cilindradas de potência e um escapamento barulhento. Uau! Não vejo a hora de montar na máquina dos meus sonhos.

23 de abril – Conto as horas para testar a parruda. Vou pagar de “fodão” no meu bairro. Os meus amigos vão ficar com a maior dor de cotovelo quando eu desfilar com a minha máquina. Não vejo a hora da rapaziada babar na minha moto. A turma se reúne aos sábados para uma corridinha básica. Agora vou poder tomar parte. Uns 180 por hora vão ser pouco prá mim. “Eita” dia que não chega!

24 de abril – Hoje encontrei a turma. Estavam combinando o que farão amanhã. O ponto de encontro no bairro e por onde iriam iniciar o passeio. Perguntaram se desta vez se eu vou. Disse que sim. Estão curiosos de conhecerem minha Ninja. Quero ver babarem na máquina. Toda preta com detalhes em vermelho e dourado. Vão ficar malucos. Amanhã cedo é o dia. Pego minha máquina e já vou direto pro ponto de encontro. Vai ser adrenalina pura. Vou deixar muita gente prá trás!

25 de abril – Chegou o dia. Fui até a loja, e não me segurava de ansiedade. Nem quis saber muito de “lenga lenga” com o vendedor. O negócio é sentar na possante e sentir seu motor rugir como um leão. Vou arrebentar! Montei na Ninja e fui até o ponto de encontro. Lá estavam todos meus amigos de bota. Os caras babaram mesmo na máquina. Verão na estrada o que farei. Lá vão babar mesmo. E iniciamos nossa viagem. Ainda comportados nas ruas da cidade, todos vibramos quando atingimos os limites urbanos e acessamos a rodovia. O caminho era espetacular. Tudo livre. Os caras me avisaram: cuidado com os desníveis na pista hein! E cuidado também com alguns motoristas distraídos! Mas para mim não interessava. Estar montando na motocicleta a 200 por hora era minha maior vontade. E lá fui. Caracas como a “bixa” corre! Acelerei e poxa, como voa! A “bixa” voa meeesmo! Já estou a 210 por hora e pareço estar devagar. Hehe! É, mas como nem tudo é alegria, me esqueci de uma coisa, ou melhor de duas coisas. Esqueci do desnível na pista e de um domingueiro à minha frente. Fazer o que!? O cara me fechou sem dar seta e saí bruscamente para a direita. Após isso, minha moto atingiu um desnível e eu perdi o controle. Cara! Não lembro de mais nada!

30 de abril – Finalmente abri meus olhos. Pô, meu! Quer pancada a minha. Ué! Tá esquisito aqui. Não me lembro de nada. Apenas de estar desviando de um carro e depois caindo da moto. O que me aconteceu? E porque tudo parece estar branco? Não consigo me mexer. Não acredito só faltava esta agora. Eu ter caído e machucado a coluna. Que raios! Mas poxa, não vejo nada. Pareço coberto! Ah, veio alguém. Aí, meu chapa! Tira esta coisa de mim. Nossa, por que este cara ta me olhando assim, com esta cara de nojo. Puxa, mamãe e papai estão ao lado dele. Porque a mamãe está chorando e o papai não me olha? Pai, eu estou aqui! Deitado, fala comigo! Meus pais se foram. E ainda este cara me cobriu de novo. Quero chorar. Meu Deus o que está havendo?

1 de maio – Tudo está estranho. Não sinto nada e não consigo me mexer. Agora tudo está escuro. Minha cama parece se movimentar. Vixi! Parece que alguém está me transportando. Tomara mesmo. As pessoas deste hospital nem vem falar comigo. Que atendimento ridículo. Sei que pelo jeito devo estar paraplégico ou coisa parecida, mas pelo menos me deixem ver o que esta acontecendo. Tudo está escuro. Nossa, mas ta demorando este carregamento da minha maca. Ué. Paramos? Acho que me colocaram na ambulância. Que legal, estou vendo uma luz. Nossa, estou deitado ainda e quanta gente em volta? Mas porque choram? Meu Deus, isto não parece uma maca, cama de hospital ou ambulância! Onde estou? Estou desesperado, todos olham para mim e choram. O que está havendo? Meu Deus, será que? Não pode ser. Quero me lembrar e não consigo. Vou fechar meus olhos e fazer uma força prá lembrar. Reflita, rapaz. Lembre-se do que aconteceu! Nossa! Agora eu lembrei! Quero chorar meu Deus e não consigo. Lembrei de tudo. Estava a 200 por hora e um carro me fechou. Eu caí violentamente no asfalto e bati a cabeça na mureta de concreto da estrada. O capacete se esfacelou e tive morte instantânea. Nossa, me lembrei. Caracas! Estou vendo meu funeral. Gente, não fechem meu caixão. Não, não… não me abandonem. Tudo está escuro novamente.

2 de maio – Agora me lembro de tudo. Como fui imprudente. Santo Deus, por que não pensei nas conseqüências de meus atos? Como eu não medi os perigos de se andar em velocidades elevadas? Nossa, fui estúpido. Agora é tarde. Papai me perdoe se não fui o filho que você esperava. Mamãe queria te dar um ultimo beijo e te mostrar que te amo, mesmo sem nunca ter dito que te amava tanto. E aos meus amigos, queria muito poder dizer que se pudesse escolher, trocaria de amigos, pois gente que se arrisca de forma tão irresponsável, não merece minha atenção. Mas é tarde. Fazer o que. Este é meu diário. Os primeiros dias de um morto! Pois eu já tinha morrido, quando comprei aquela motocicleta. Morri quando escolhi testar meus limites em lugares que não foram projetados para isso. Morri quando ignorei minha própria vida. Não adianta mais chorar! Resta-me agora que alguém possa ler meu diário. E que meus últimos instantes de vida sejam exemplo para outros. Aos que estiverem lendo as páginas de minha vida, ofereço meu diário. O diário de um morto!

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