Um crime covarde

A rodovia Ademar de Barros é considerada a principal via de acesso entre a região de Campinas, interior de São Paulo, ao sul de Minas Gerais. Diariamente, milhares de veículos utilizam-se da rodovia para o turismo, lazer ou mesmo a trabalho. E para suprir as necessidades de segurança desta rodovia, dezenas de policiais rodoviários mantém uma rotina de patrulhamento e fiscalização de trânsito diários. Além do efetivo policial, a estrada também abriga diversos postos de combustível e apoio aos seus usuários, além do serviço executado pela empresa que administra a rodovia.

Dentro deste contexto, que envolve segurança e apoio humano, Marcos e Ivan, patrulham a rodovia, a bordo de um Chevrolet Corsa, uma viatura semi-nova. O fato destes policiais utilizarem um veículo em ótimas condições se deve à parceria entre a Polícia Rodoviária e a concessionária responsável pela rodovia. Parceria esta, já prevista no contrato de concessão. Um ponto positivo para os patrulheiros, no auxílio aos condutores e no combate ao crime na rodovia.

Marcos e Ivan iniciam seu turno de trabalho em um ambiente de aparente tranquilidade. O fim da tarde de sábado é marcado por poucos veículos transitando pelas rodovias da região, fato que leva a poucas chances de ocorrer um acidente. Marcos é o motorista da viatura, enquanto Ivan pode ser considerado o encarregado desta dupla já acostumada à inúmeras ocorrências, sejam em acidentes, sejam policiais. E Marcos observa o movimento, dirigindo em uma baixa velocidade, o que propicia um melhor acompanhamento do tráfego e identificação de possíveis irregularidades ao longo da via. Com seus quase 16 anos de profissão, Marcos, é um policial experiente, de aspecto franzino, baixo e dono de uma enorme tranquilidade. Seu equilíbrio se traduz na grande perspicácia e extrema atenção nas ocorrências em que já se envolveu. Sua atuação efetiva, principalmente no combate ao crime, é motivo de respeito e admiração pelos seus colegas. Ivan pode ser considerado o contrário de seu companheiro, mas não menos respeitado e admirado pelos colegas. Com mais de vinte anos de profissão, Ivan sempre foi marcado pelo pragmatismo, energia e, podemos dizer também, sua intempestividade. Seu porte atlético, estatura alta e uma voz grave denotam uma imagem de intimidação aos que o vêem pela primeira vez. Mas apesar desta aparência intimidadora, Ivan é considerado uma pessoa amável e extremamente afeiçoada aos amigos.

A grande diferença entre ambos está no comportamento, enquanto Marcos é equilibrado e metódico em sua atuação, Ivan é explosivo e prático. Ivan é do tipo que não gosta de levar desaforo para casa. Marcos é sereno. Esta diferença tão gritante em temperamentos foi determinante na decisão do comandante em juntá-los em uma única equipe. Preocupado com a explosão e irreverencia de Ivan, resolveu colocá-lo com Marcos, dando o toque de sutileza na execução das tarefas. O objetivo é tornar a dupla mais equilibrada, sem perder a energia e determinação no cumprimento do dever. Uma mistura que na teoria, teria tudo para dar certo.

_ Está muito tranquilo! – disse Ivan, aparentando um certo tédio.
_ Que continue assim! – respondeu Marcos.
_ Vamos parar logo e realizar uma fiscalização. – disse Ivan
_ Calma, irmão!Primeiro vamos terminar o patrulhamento, depois vamos ter tempo para isso – respondeu novamente Marcos.

O objetivo principal de ambos policiais é propiciar a sensação de segurança aos condutores que trafegam pela rodovia. Além do patrulhamento, a dupla também adentra os postos e restaurantes ao longo da via, afim de inibir possíveis práticas delituosas. A dupla já adentrava no pátio do terceiro posto visitado, quando foi surpreendido por uma aglomeração de pessoas, junto à borracharia, localizada em um dos extremos do posto, distante da bomba e do restaurante. As pessoas, funcionários do posto e do restaurante, apinhavam-se junto à entrada da borracharia, em uma porta de acesso à uma pequenina casa, localizada nos fundos. Esta aglomeração atraiu a dupla de policiais, que atentos, rumaram em direção à borracharia.

_ Que será que está havendo lá? – perguntou Marcos.
_ Não sei! Mas vamos com cuidado! Pode ser uma tentativa de roubo – respondeu Ivan.

A aproximação da viatura da policia rodoviária chamou a atenção das pessoas, que ao avistarem os policiais, começaram a gesticular intensamente pedindo mais rapidez na chegada da polícia. Marcos e Ivan encostaram a viatura a poucos metros da entrada, desembarcaram e iniciaram sua caminhada em direção à borracharia. Logo várias pessoas cercaram os policiais. Eram homens e mulheres que aparentavam bastante agitação. Viam nos policiais a solução daquela situação.

_ Seu guarda! Ainda bem que chegou – disse uma pessoa para Marcos.
_ Graças a Deus! – exclamou outra.
_ Ele está louco! – disse uma terceira pessoa.
_ Mas quem está louco? – perguntou Ivan.
_ O borracheiro – respondeu.

Os olhares das pessoas que rodeavam a dupla estavam transtornados. Algumas mulheres tremiam. Os homens suavam frio mostrando que a situação era mais delicada que parecia. Marcos e Ivan continuavam sem saber o que estava ocorrendo. Ao aproximarem-se da entrada da borracharia, próximos à entrada da casa, outra pessoa alertou a dupla dizendo que havia um homem armado com um facão, no interior da borracharia. A dupla entreolhou-se e, como em uma transmissão de pensamentos, se posicionaram de forma defensiva sobre uma possível agressão do citado homem. Marcos virou-se para as pessoas e perguntou:

_ Afinal! O que está havendo aqui?
_ O borracheiro bebeu todas e está fora de si – disse um jovem, que pelos seus trajes, denunciava tratar-se de um frentista. – sua mulher foi até o Pronto Socorro levar a filha e deixou ele cuidando da outra filha, uma criança de colo. Mas o cara começou a beber e empunhar um facão dizendo que vai matar o primeiro que aparecer.
_ Seu guarda! Ele está com a criança lá dentro! Faz alguma coisa! – disse uma mulher à Ivan.
_ Nós vamos fazer! Tenha calma! – respondeu.
Um homem aproximou-se de Marcos e disse;
_ Seu guarda! Sou o proprietário do posto e desta borracharia! Quando me telefonaram dizendo sobre o ocorrido, corri para cá! Admiti este homem há uns quatro meses, sabia que ele era alcoólatra, mas ele veio me pedir emprego dizendo que estava recomeçando sua vida!

As palavras daquele senhor foram interrompidas por gritos agudos vindos do interior da casa. As palavras ganhavam uma entonação empastada, denunciando o estado de embriagues de quem proferiu. Gritos e palavrões do embriagado eram proferidos à cada momento que alguém apontasse a cabeça na porta da casa. A pessoas, do lado de fora, temiam entrar na casa e serem atingidas pelo facão daquele homem embriagado. Pediam insistentemente ao borracheiro que parasse com aquela cena agressiva. Queriam retirar a criança daquela casa. Mas não sabiam se a criança fora molestada pelo pai. O homem, novamente fitou os olhos de Marcos e continuou a conversa:

_ Eles passavam fome! O borracheiro e sua mulher imploraram serviço. Não tive como negar, pois precisava de um borracheiro que morasse aqui no posto. A esposa deste infeliz é uma mulher trabalhadora e corajosa. Ela ajuda o marido trabalhando como doméstica na cidade. E ela ainda sofria quando o marido se embriagava. Era agredida.
_ Mas ela nunca denunciou o marido? – perguntou Marcos.
_ Pelo que sei, ele chegou a se internar em uma clínica. Aqui no posto até que ele chegava a beber. Mas ficava na sua e nunca tinha mostrado esta agressividade! – respondeu.

Mais uma vez as palavras do proprietário foram cessadas com os berros do borracheiro, que mal conseguia formular uma frase exata. Pelos berros e palavrões, ele queria que todos se distanciassem. Mas a cada urro, mais pessoas aproximavam-se da borracharia, o que causou ainda mais a ira do borracheiro. Ivan, próximo a parede, temia que sua presença pudesse ainda tornar ainda mais agressivo o comportamento do borracheiro. Aguardava Marcos terminar a conversas com o proprietário afim de agir. A vontade de Ivan era entrar logo naquela casa, tomar no braço o facão do borracheiro e resgatar a criança. Mas o policial contera seus atos, à espera do amigo. Marcos ouvia atentamente o proprietário com o intuito de obter mais informações sobre o passado daquele bêbado.

_ Mas o quê o fez ficar neste estado? – perguntou ao proprietário.
_ Não sei! Só sei que ele cuidava da filha, uma criança recém-nascida. Segundo os frentistas, ele estava embriagado na porta da borracharia e proferia palavras de baixo calão em direção aos frentistas e aos clientes do posto. Já portava o facão. Quando meus funcionários se aproximaram dele, o infeliz correu para a casa e disse que quem entrasse morreria. – respondeu o homem.

Marcos pediu calma ao dono da borracharia. Lhe disse que o que pudesse fazer para resolver logo aquela triste situação, ele faria. Então aproximou-se de Ivan e disse:

_ Não ouço a criança! Vamos ter que agir!
_ Deixa que eu vou! Rapidinho eu resolvo! – respondeu Ivan.
_ Vamos devagar! Primeiro eu vou até a porta me identificar ao borracheiro e iniciar um contato – disse Marcos

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