Um pingo de vida

Um pingo de vida

Um pingo de vida

Eduardo era um policial novato, de cor morena e estatura mediana, uma pessoa simples e comum como qualquer outra, que terminava seu turno de trabalho, sem muitas novidades, na Rodovia Padre Manoel da Nóbrega, no Posto Rodoviário de Itanhaém. Em um fim de tarde de domingo quente, Eduardo observava o trânsito dos carros retornando para a Capital, turistas que buscaram , no Litoral, um pouco de lazer e tempo para o stress do trabalho e da rotina das cidades grandes. Eduardo sabia que proporcionar o lazer de muitos fazia parte de seu ofício, pois ele estava lá para disciplinar o trânsito, punir os mais irresponsáveis e principalmente preservar e salvar vidas. Eduardo fixava seus olhos naqueles motoristas, suas famílias e seus veículos, sabia que qualquer deslize de um motorista podia se transformar em perigo para outro. E Eduardo tinha a plena consciência disso.

O sol preguiçosamente se escondia no horizonte, o dia lentamante dava lugar à escudirão de uma noite estrelada, logo a estrada se iluminava com os faróis e lanternas dos veículos, em uma extensa fila colorida. O trânsito já começava a rarear, sinal que a maioria dos veículos já tinham partido e a rotina começava a tomar forma nas estradas da região.
Eduardo, cansado de um dia longo de trabalho, aguardava seu fim de turno e ainda observava os últimos veículos que retornavam à Capital. Semblante cansado era o sinal do fim de mais um dia de trabalho. O jovem policial já observava os ônibus que aproximavam-se do Posto, na espera de sua rendição. No interior do Posto, escrevia no livro de passagem de turno as poucas novidades, guardava no armário o talão de multas e lavava o rosto marcado pelo pó da estrada. Só restava esperar sua rendição.

Mas a  tranqüilidade daquele fim de turno parecia acabar, quando um carro parou em frente ao Posto, e pessoas desesperadas gesticulavam e gritavam pedindo socorro para Eduardo, logo eram dois , três, vários veículos parando no Posto. Uma pequena multidão, em uníssono, sinalizava e avisava para Eduardo: – Um acidente…Várias vítimas….É grave, seu guarda!!!
Um misto de decepção pelo acidente no final de turno de serviço, com a energia de sair para o salvamento movido pela adrenalina, tomara conta de Eduardo. Embarcando em sua viatura (um Voyage antigo, ano 1985, que apesar de velho de guerra mantinha a força dos veículos mais robustos), Eduardo já avisava, pelo rádio, pedindo o auxílio dos Bombeiros . O trânsito lento indicava a proximidade do acidente. Logo Eduardo se via obrigado a transitar com a viatura, pelo acostamento, na tentativa de aproximar-se rapidamente do sinistro.

Uma cena grotesca causava espanto naquele policial novato, que apesar da energia inerente à juventude, lhe faltava a experiência e a serenidade presentes nos mais velhos. Um ônibus urbano parecia ter engolido um pequeno veículo da marca chevete, que cravado embaixo do coletivo, parecia fundir-se em um só com aquele coletivo. Gritos e urros medonhos eram ouvidos em todos lados, Eduardo observava, impotente aquela cena. Pessoas machucadas, desesperadas, desciam do ônibus sem rumo e com ferimentos diversos. O frio na barriga tomava conta de Eduardo, seus olhos esbugalhados varriam sem destino todos personagens daquela cena obscura. Imóvel, petrificado, o jovem policial não sabia o que fazer. O espanto aos poucos dava lugar à necessidade de se fazer algo, necessidade de ajudar aquelas pessoas desconhecidas. Eduardo sabia que , enquanto os Bombeiros não chegassem, precisava agir.

_ Vem comigo!!! Calma, o pior já passou!!! – afirmava Eduardo, já abraçando uma criança desesperada, com um enorme e profundo corte horizontal sobre a testa. Seus braços acolhiam aquela menina que ao avistar o policial, inconscientemente o abraçava, procurando segurança contra seu pavor. Logo Eduardo começava a se encher de coragem, era uma , duas, muitas as vítimas que Eduardo acolhia. Eduardo notou, ao seu redor, que não estava só. Vários motoristas abandonavam seus veículos movidos pelo trabalho solitário de Eduardo, buscando auxiliar as vítimas na busca desesperada da ajuda aos que mais precisavam.

Entretido no socorro das vítimas, Eduardo mal ouvia as sirenes das ambulâncias e bombeiros que já encostavam seus veículos com mais preparo e aparelhagem para o resgate. Apinhavam-se policiais, bombeiros e pessoas comuns que buscavam um único objetivo, abreviar o sofrimento das vítimas estendendo a mão amiga em um momento de tanto sofrimento. Eduardo atentamente auxiliava mulheres, crianças e homens de todas idades, mas notava algo estarrecedor: todas vítimas eram do ônibus. -”E os passageiros do chevette?” – imaginava. Dirigiu-se ao veículo, fundido em monte de ferragens com o coletivo, tentava ouvir algum urro ou grito de socorro. Seu coração gelava perante o silencio naquele veículo. Logo vários bombeiros aproximaram-se do veículo. O temor transformara-se em realidade: todos ocupantes mortos. Dois homens e três mulheres estavam sem vida. O sangue misturava-se ao óleo, a carne forrava os destroços de ferro. Eduardo presenciava, imóvel, aquela cena. Bombeiros retirando pedaços dos corpos. Braços, pernas e cabeças dilaceradas. A tristeza tomava seu ímpeto, o desanimo consumia sua energia. Eduardo via que pouco podia fazer perante aquela morte brutal.

Páginas: 1 2

Pin It

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *


9 × = vinte sete

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>