A estrada, a passarela, o peão e o cavalo

A estrada, a passarela, peão e o cavalo

A estrada, a passarela, peão e o cavalo

Benedito, um jovem e singelo peão de fazenda, homem carrancudo, de pouca prosa e grande mau humor, caminhava para seu trabalho, da pequena vila em que mora, até a Fazenda do Seu Antenor, homem rico, dono de uma imensa propriedade, à perder de vista, que margeia uma estrada de acesso ao interior de São Paulo. O jovem peão, de pouca instrução, mas muita vontade de trabalhar percorre todos os dias cerca de 10 kilometros de estrada de chão batido, da sua vila até a sede da fazenda, tendo ainda em seu caminho, a rodovia asfaltada e seu grande fluxo de veículos. Em virtude do grande número de pessoas que cruzam a rodovia,  oriundos da pequena vila e com destino à fazenda, instalou-se no local uma passarela para a segurança dos pedestres, antiga reinvidicação do dono da fazenda para seus funcionários.

Todos que passavam pelo local ficaram agradecidos com o Seu Antenor. Ou melhor, quase todos. Como bom e teimoso peão, Benedito era reticente em utilizar a passarela, ainda mais montado em seu cavalo. Todos que passavam pela passarela, desmontavam de seus cavalos e percorriam o trajeto a pé. Com Benedito era diferente. Ele cruzava a via, embaixo da passarela, ainda montado em seu cavalo. No canteiro central da via, foi instalada uma pequena defensa metálica, mas entre seus vãos, era possível efetuar a passagem.

Havia apenas um pequeno problema. Toda vez que cruzava a via, o cavalo de Benedito ficava arredio, forçando o peão a controlá-lo com vigor e com suas esporas. E assim o tempo passava, todos pela passarela e Benedito pela estrada, sempre enfrentando a resistência de seu equino. “Cabra, toma cuidado com a ‘istrada’” – diziam seus colegas. “Num tem ‘probrema’” – respondia o peão – “sou mai eu e o cavalo sabe ‘qui’ quem manda ‘sô’ eu”. Certa vez, Seu Antenor, em visita à fazenda, disse ao peão: “Rapaz, se você não nos ouve, pelo menos entenda seu cavalo, ele parece ser mais esperto que você”. Mas não adiantava falar. Benedito sempre foi teimoso, desde pequeno não dava ouvidos aos conselhos alheios, e não seria um cavalo que mudaria seu comportamento.

Certa vez, em uma sexta-feira, o movimento da estrada parecia mais acentuado, dificultando a passagem pela estrada. Benedito, enquanto esperava o momento certo de cruzar a via, tentava controlar os brios do cavalo, mais agitado que o de costume. Em certo momento, segurou firmemente nas rédeas e após uma esporada, partiu para a travessia da rodovia. Logo chegou no canteiro central e, sem observar a aproximação de um veículo, tentou cruzar o outro lado da via. Em um relance, deu outra esporada no cavalo, que desta vez, empinou as patas dianteiras, não obedecendo ao peão. Logo o veículo passou à sua frente em alta velocidade, buzinando insanamente, como que xingando o teimoso peão. O barulho da buzina assustou ainda mais o cavalo que deu outra empinada, derrubando Benedito. Na queda, bateu a cabeça na defensa e desmaiou sobre a pista.

Instantes depois, o peão parecia recobrar os sentidos. Abriu lentamente os olhos e colocou sua mão na cabeça. Logo sentiu uma forte dor e um calombo enorme na nuca. Sentou-se ainda desnorteado e percebeu várias pessoas ao seu redor. O trânsito estava parado na estrada em virtude do ocorrido e dos curiosos que se aglomeravam para saber qual desfecho daquela cena incomum. Olhando para aquela gente, Benedito perguntou: “O que aconteceu?”. Uma pessoa, aparentemente condutor de um veículo, respondeu: “Cara, você nasceu de novo! Vi na minha frente um cavalo, que empinava para o meu lado, como que não permitindo que eu passasse. Logo depois vi você no chão. O cavalo relinchava para nós e olhava para você! Quando percebeu que o trânsito parou, o cavalo foi para fora da rodovia. Aí, arrastamos você para cá!”

Aos poucos, ao perceberem que o peão estava bem, os condutores foram embora, deixando Benedito junto com seu cavalo. Em pouco tempo, já em pé, Benedito percebeu que todos foram embora, restando apenas seu cavalo, que comia um capim próximo dele. Ainda um pouco tonto, observava atentamente a passarela, esperando o tempo passar para recobrar todos seus sentidos. Percebeu então que o único teimoso ali era ele mesmo. Via pessoas cruzando a via pela passarela, de forma segura e sem sustos. Logo, outra cena lhe chamou atenção. Algumas vacas, que pastavam próximo, chegavam perto da via e, desviavam em direção à passarela. Espantado, Bendito assistiu aos animais cruzarem a via pela passarela, como que percebendo o perigo na rodovia. O peão então olhou para seu cavalo e disse: “Nossa, num é qui ocê ta certo! Até os bichos usam a passarela!”. O cavalo não esboçou qualquer reação, continuando a comer sua grama. Naquele tombo Benedito aprendeu que até os animais conhecem o perigo. E seu cavalo, mesmo sofrendo as esporadas de sua bota, salvou sua vida. Logo o peão levantou-se, montou em seu cavalo e, passando a mão pela crina do animal, continuou sua jornada, desaparecendo no horizonte junto ao por do sol.

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